Gabriel Marins – Podcast Lente Espirita 

Imagine que estamos dentro de uma sala onde o fogo começa a se alastrar. Cadeiras, armários, livros e documentos estão em chamas. Temos pouco tempo. Em breve o fogo irá consumir todos os objetos, passar para os demais cômodos da casa e até comprometer vidas. O esforço em apagar as chamas dos objetos da sala parece não surtir efeito e, logo em seguida, elas voltam ainda com mais força. Esse empenho continuará a ser em vão enquanto nossa atenção não se voltar para as faíscas que surgem da rede elétrica em curto-circuito, alimentando o incêndio.

Voltamos para este texto, longe das chamas, e, aliviados como no acordar de um pesadelo, sabemos que aquele incêndio no qual estávamos era apenas imaginação. Mas, e se não fosse, leitora e leitor amigos? Se você e eu, bem como todas as pessoas, conhecidas ou não, realmente estivéssemos em uma sala onde as chamas se espalham rapidamente, exigindo de nós uma análise e ação eficazes para a preservação do espaço e da vida? Se considerarmos o mal como o fogo que se espalha e o Planeta Terra como a nossa casa, com inúmeros cômodos, veremos que essa analogia é possível, especialmente porque sabemos que nosso planeta é um mundo de Expiações e Provas, onde o mal ainda predomina sobre o bem¹.

Para que o esforço não seja apenas aquele de diminuir as chamas, o que também tem sua importância, é imprescindível achar a causa do incêndio e agir para impedir sua propagação. Numa análise breve, podemos ver nesse grande incêndio no planeta as chamas da desigualdade social, com 1% das pessoas mais ricas concentrando 38% de todo o dinheiro do mundo²; as chamas da guerra fazendo vítimas todos os dias em, pelo menos, 28 conflitos ativos no mundo³; as chamas da emergência climática, dos preconceitos de cor, de gênero, de religião e tantos outros. Certamente, precisamos nos mobilizar com certa urgência e esforço para apagar essas chamas. Mas, estrategicamente, assim como na sala em chamas, precisamos perguntar: seriam elas a causa ou o efeito de alguma coisa que não vemos? Em outras palavras, os desajustes que marcam a sociedade são objetos em chamas na sala ou são o curto-circuito que promove o incêndio?

Quem ainda prefere acumular riquezas, sendo indiferente à fome e à pobreza, possui algo em comum com aqueles que usam da violência como método para fazer valer seus interesses. Ambos pensam demasiadamente em si, colocando seus interesses sempre à frente do próximo. O mesmo vale para aqueles que, deliberadamente, praticam discriminação de pessoas pela sua cor, gênero, religião e outros. O egoísmo ainda reina nesses corações e, na verdade, como dizem os Espíritos, na maioria de nós, habitantes do Planeta Terra4. Sendo assim, diferente da sala onde estávamos, na qual a origem das chamas se achava em local visível e acessível materialmente, o curto-circuito que consome o nosso planeta é invisível e inacessível.  Por isso, só conseguimos ver o efeito e não a causa do fogo, que vive no coração de cada um de nós. A extinção desse incêndio deve passar, necessariamente, por um olhar voltado para a instância do Espírito.


Ao mesmo tempo, devemos destacar que esse incêndio, nascido do egoísmo, já atingiu proporções muito graves e as chamas estão tão fortes que hoje alimentam outros focos, num efeito cascata, tornando os seres ainda mais egoístas. Por isso que os Espíritos nos dizem que as nossas leis, organização social e educação contribuem também para alimentar o egoísmo em nós, tornando-o a imperfeição humana mais difícil de desenraizar
5. Nesse contexto, podemos lembrar que a escravidão foi um processo autorizado por lei no Brasil por 300 anos, criando não só um ciclo perverso de enriquecimento pela exploração de outras pessoas, mas também o agravamento do racismo. Sendo assim, apesar de entender que a causa primária do incêndio reside no íntimo de cada ser, há também uma instância material que não pode ser negligenciada e deve ser enfrentada.

O imperativo para o momento é uma metodologia que não seja excludente e contemple tanto as necessidades de reparação do Espírito, quanto os meios materiais que esses Espíritos criaram para se relacionar. Essa metodologia, segundo Kardec, é a educação. Mas não a educação que se propõe somente a formar seres instruídos, restritos em pensar a matéria e suas questões, mas que contemple também o ser essencial que nós somos, cultivando a moral para florescer o amor. Diz o professor Rivail: “Que se faça pela moral tanto quanto se faz pela inteligência e ver-se-á que, se há naturezas refratárias, há também, em maior número do que se pensa, as que requerem apenas boa cultura para darem bons frutos”.5

Pensemos em academias que contemplem, no curso de formação de economistas, um período de vivência solidária junto a famintos para mudar sua condição; na formação de legisladores, uma aproximação com a realidade dos condenados para pensar as formas de punição e reparação; em escolas que se esforcem para contemplar nos alunos de suas classes a diversidade de cores, de classe, de gêneros e de religiões que temos na nossa sociedade; em religiosos e cientistas que caminhem confiando que tanto intelecto como coração são asas que nos ajudarão a crescer como sociedade. 

A construção do futuro sonhado exige um olhar integral sobre a realidade do incêndio que ainda se alastra pelo nosso planeta, contemplando não só os seus efeitos como também as suas causas. Esse movimento naturalmente nos levará a um reajuste quanto às prioridades no combate às chamas. Enquanto o intelecto guiar o coração, por mais que tenhamos boas propostas, sempre reproduziremos as mazelas (as chamas) que ainda reinam no nosso mundo consciencial6. Por outro lado, quando a compaixão, linha mestra do amor, for o guia do intelecto, nossa energia será direcionada para ações na sociedade que valorizem o próximo como a nós mesmos. Dessas ações, queridos irmãos e irmãs de fé, brotará a água da vida professada por Jesus7, capaz de fazer com que a nossa rede de energia interna, antes em curto-circuito, deixe de ser uma das causas do incêndio e passe a contribuir para a regeneração do mundo, com mais justiça, amor e caridade.

 

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¹ – KARDEC, A. (1864). O evangelho segundo o Espiritismo. Cap. III. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 2014.

²-https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/12/07/pesquisa-mais-ricos-detem-fortuna-global.htm. Acesso em 20/06/2022

³-https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/alem-de-crise-na-ucrania-mundo-tem-28-conflitos-ativos-e-teme-novas-guerras.shtml Acesso em 20/06/2022

4 – KARDEC, A. (1857). O Livro dos Espíritos. Questão 915. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 2014 .

5– KARDEC, A. (1857). O Livro dos Espíritos. Questão 917. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 2014.

6 – XAVIER, F. C. Vinha de luz (Vol. 3). Cap. 174. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 2013. 

7 – Jo 4:14

8– KARDEC, A. (1857). O Livro dos Espíritos. Cap XI. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 2014

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