São muito comuns os relatos de crianças que vêem espíritos ou que ouvem espíritos. Isso pode acontecer eventualmente, mas também pode ser uma coisa frequente e comum na vida da criança. O chamado “amiguinho imaginário” de algumas crianças muitas vezes é um espírito seu amigo, que vem visitá-la, fazer-lhe companhia, até orientá-la nalguma coisa. A mediunidade em crianças é comum.

Por Donizete Pinheiro, de Marília – SP – Brasil

Allan Kardec, no capítulo 14 de O Livro dos Médiuns, afirma que a mediunidade é uma faculdade do ser humano e que todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos espíritos, é, por esse fato, médium. 

 

Raras são as pessoas que não possuem alguns rudimentos dessa faculdade, de modo que se pode dizer que todos somos médiuns, no sentido amplo da palavra. Mas, usualmente, são qualificados como médiuns aqueles em que a mediunidade se manifesta de forma bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes. Esses são, efetivamente, os que têm capacidade de servir como intermediários entre os desencarnados e os encarnados – é a mediunidade no sentido próprio.

 

Trata-se de um compromisso assumido antes da reencarnação, cujo objetivo é a evolução do médium, pelas oportunidades que tem de praticar a caridade.

 

É uma faculdade permanente e seu uso não se limita às reuniões práticas nos centros espíritas ou em outras instituições. São vários os tipos de mediunidade, de efeitos físicos ou inteligentes, servindo como meio de comunicação com os espíritos. Podem consistir numa simples sensibilidade até fenômenos de materialização. Destacam-se, na atualidade, a psicofonia, a psicografia, a vidência e a audiência.

 

A mediunidade ostensiva pode surgir em qualquer momento da reencarnação, mas costuma ser a tempo de proporcionar ao médium um trabalho efetivo de socorro aos encarnados e desencarnados, possibilitando o seu crescimento moral e espiritual. Kardec afirma que não há como se afirmar que alguém é médium, ainda que apresente alguns sinais físicos, e que somente se experimentando é que uma mediunidade ostensiva pode se confirmar (OLM, capítulo 17).

 

Ao tratar dos médiuns involuntários ou naturais – que são aqueles que não têm consciência da sua faculdade e consideram normal o que lhes passa ao redor –, o Codificador diz que os fenômenos podem se manifestar em todas as idades, inclusive em crianças ainda muito novas (OLM, capítulo 14).

De fato, alguns médiuns possuem essa faculdade natural mais destacada desde a infância, especialmente a vidência e a audiência, a exemplo de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.

 

No entanto, eventuais percepções de espíritos podem não indicar uma mediunidade, mas decorrerem da condição da criança no seu processo reencarnatório, uma vez que até mais ou menos os sete anos os laços fluídicos que ligam o perispírito ao corpo físico estão mais frouxos, facilitando a emancipação da alma e a percepção visual e auditiva de eventuais espíritos. Geralmente, não tendo a criança um compromisso com a mediunidade, essas percepções vão desaparecer espontaneamente.

 

Por outro lado, é possível que a criança seja alvo de um processo obsessivo – o que ocorre em casos mais graves –, e essa obsessão poderá intensificar as percepções espirituais.

 

Tendo ou não a criança compromisso com a mediunidade, os seus pais ou responsáveis devem receber algumas orientações para saberem lidar com ela.

No capítulo 18 de OLM – inconvenientes e perigos da mediunidade –, após obter algumas respostas dos Espíritos Superiores em relação às crianças, Allan Kardec afirma:


  • Que não se deve forçar o desenvolvimento dessa faculdade nas crianças e que, ainda que espontânea, se deve proceder com grande circunspeção, não convindo a excitar nas pessoas débeis. 
  • Que a infância e a juventude estão mais expostas a serem vítimas das tramas dos espíritos enganadores.
  • Que o recolhimento é uma condição necessárias à comunicação dos espíritos sérios e que não se pode esperar de uma criança a gravidade necessária a semelhante ato.

 

Além disso, Allan Kardec ensina que toda prática mediunidade deve ser precedida do estudo da teoria, para que o médium possa se iniciar de forma segura, sabendo como se comportar e se proteger de espíritos inferiores. Ora, pela sua imaturidade mental, a criança não tem condições de entender as particularidades da faculdade, de compreender os eventuais fenômenos que lhe ocorrem e menos ainda de lidar com eles.

 

O filósofo espírita brasileiro Herculano Pires, no seu livro Mediunidade, destaca que na fase infantil as manifestações mediúnicas são mais de caráter anímico, recebendo a criança intuições dos seus protetores, denunciando a presença de espíritos e transmitindo recados dos espíritos familiares, de maneira direta ou simbólica.

 

Acrescenta que na adolescência o corpo já amadureceu e é possível que as manifestações mediúnicas se tornem mais intensas e positivas, momento em que o jovem deve ser encaminhado para informações mais precisas, mas que não se deve tentar o seu desenvolvimento em sessões.

 

Por essas orientações, mostra-se evidente a inconveniência do exercício da mediunidade por crianças e até por adolescentes, mesmo que sejam médiuns. Ainda que um adolescente tenha organização física que lhe permita o exercício da mediunidade, raramente terá maturidade suficiente para entender a responsabilidade da tarefa e mesmo de a ela se dedicar com a regularidade exigida.

 

Diante dos relatos infantis, os pais devem tratar a mediunidade com naturalidade, sem criar medo, nem supervalorizar ou ridicularizar. É fundamental que proporcionem um lar acolhedor e seguro para que a criança possa vivenciar essas experiências espirituais de maneira equilibrada, sem sentir-se ameaçada ou incompreendida. Nesse aspecto, é de grande valia o estudo do Evangelho no lar e as orações conjuntas, atraindo o amparo dos protetores familiares, os quais, inclusive, poderão atenuar as percepções.

 

Por sua parte, o centro espírita oferece uma importante contribuição por meio dos recursos do passe, da água fluidificada e, conforme a situação, das aulas de evangelização infantojuvenil.

Donizete Pinheiro, juiz de direito aposentado, escritor e expositor espírita, diretor de doutrina do Grupo Espírita Jesus de Nazaré.

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